Crianças não nascem sabendo falar, e isso não é surpresa para ninguém. A fala, assim como a cognição, não surge da noite para o dia: ela também vai chegando por meio de estágios.

Entretanto, não conseguir falar é diferente de não conseguir se comunicar. Quantas vezes você não viu uma mãe reconhecer a necessidade do pequeno só pelo choro? Pois bem, desde o começo ele já vai criando uma espécie de linguagem própria, ainda que não use as palavras.

O problema é que nem todo mundo entende essa linguagem do bebê e, a medida em que cresce, ele precisa aprender a se adaptar ao mundo à sua volta. Com isso, ele passa a aprender a língua do lugar em que vive ao longo de dois estágios: o pré-linguístico e o linguístico.

Estágio pré-linguístico

Este estágio ocorre antes da criança conseguir falar as primeiras palavras. Durante esse tempo, ela costuma usar muito o choro para se comunicar. Com o tempo, ele começa a produzir sons que dão a base para que ele aprenda a usar as cordas vocais. Por volta dos 6-10 meses, o bebê passa a balbuciar e repetir sons de consoantes e vogais.

No final do primeiro ano de idade, a criança já tem uma noção básica dos sons usados na linguagem, o que permite que ela possa efetivamente aprender a falar.

Estágio linguístico

Lá pela metade do segundo ano de vida (18 meses), a criança já consegue usar combinações de sons para se referir a pessoas, objetos, animais e até mesmo acontecimentos. Nessa época, estima-se que ela tenha um vocabulário de cerca de 50 palavras, mesmo que elas estejam erradas.

Ao final dos 2 anos de idade, espera-se que a criança tenha um vocabulário de mais de 100 palavras e, entre os 2 e 3 anos, ela começa a aprender as regras gramaticais e a trocar menos as letras. Aos 6 anos, já consegue falar frases longas e busca sempre empregar as regras gramaticais corretamente.

Como a criança aprende?

Um linguista chamado Chomsky acredita que parte do aprendizado é biologicamente determinado, ou seja, a criança vai aprendendo a falar porque seu organismo se desenvolve, possibilitando a fala.

Piaget, traz uma visão que reflete melhor o que vemos na prática: o aprendizado da linguagem ocorre por meio das interações entre a criança e o mundo. Ele se dá juntamente com o desenvolvimento cognitivo, e é baseado tanto em pressupostos biológicos quanto interacionistas.

Com isso, fica mais claro que a criança precisa do estímulo dos pais para aprender a falar. Suas primeiras sílabas são, de fato, imitações dos sons que os pais emitem perto dela. Isso deixa evidente como é preciso que haja alguém a estimulando para que a criança possa aprender a falar de fato.

O que fazer se meu filho não apresenta o desenvolvimento típico?

Para começar, devemos manter em mente que as idades, tanto do desenvolvimento cognitivo quanto motor, são aproximadas, com referência em uma média. Ou seja, a capacidade de pensamento representativo, característica marcante do estágio pré-operatório, pode não aparecer logo que a criança faz 2 anos de idade.

Vale lembrar que crianças diferentes se desenvolvem de maneiras diferentes, mas, em linhas gerais, existe um tempo certo para que algumas habilidades apareçam.

Se, por acaso, uma criança de 3 anos ainda não consegue falar uma palavra, é sinal de que ela apresenta alguma disfunção no desenvolvimento e isso deve ser investigado. Por outro lado, bebês que não saem da fase do balbucio podem ser surdos, sendo esta apenas outra condição que precisa de atenção.

Na dúvida, consulte sempre um pediatra de confiança. Se necessário, ele poderá encaminhar o pequeno para um fonoaudiólogopsicopedagogoneurologista, entre outras especialidades que podem ajudar a trabalhar essas habilidades.

Além disso, dificuldades no aprendizado de uma criança podem ser um convite para a reflexão: o que está acontecendo no ambiente social e familiar dessa criança que pode estar atrapalhando seu desenvolvimento?

Como dito anteriormente, os vínculos afetivos são indispensáveis para um desenvolvimento pleno e de qualidade. Pais que brigam frequentemente ou que são ausentes, a presença de algum irmão com quem a criança é sempre comparada, situações nas quais ela é inferiorizada, entre outros, são todos fatores que prejudicam o desenvolvimento.

Por isso, às vezes o problema pode não estar na criança em si, mas na dinâmica familiar. Nesses casos, é importante prestar atenção nas atitudes que podem prejudicá-la, assim como buscar ajuda quando necessário.

Texto adaptado do site minutosaudavel.com.br

Alessandra Gimenez é educadora, especialista em educação infantil, administradora, mãe da Laura e da Alice.