Pesquisas apontam que a delinquência, relacionamentos abusivos e repetições patológicas de comportamento, derivam de uma atuação deficiente do pai na vida dos filhos, uma ausência física ou emocional deste pai, pela passividade ou pela agressividade, física ou verbal. Mas como se estabelece esta relação parental dentro da família?

A paternidade vem se transformando com o passar das décadas, desde a inserção da mulher no mercado de trabalho. O homem que antes era o único provedor da casa e com isto carregava toda a autoridade através do autoritarismo passou a contar com uma parceira no quesito financeiro, que sai também em busca do sustento e realização profissional. Desta forma, aquele pai do passado, que chegava em casa e dava ordens à uma família submissa já não consegue se encaixar. A mulher hoje tem voz, porém, em contrapartida muitas destas alterações têm calado e diminuído o homem, causando desordem e confusão no que diz respeito a educação dos filhos, responsabilidade que agora é dividida com o Pai também.

A função paterna contribui muito no relacionamento dos filhos com o outro, sendo ele a primeira pessoa que interrompe a relação mãe e filhos. A maneira como esse pai relaciona-se com seu filho é que define o tipo de conduta que esta criança terá quando adulto na sociedade. Quando o pai consegue se inserir de maneira saudável na relação familiar, ele atua no resgate da mãe no egocentrismo do filho. O que isto significa? Significa que faz parte da saúde psíquica da mulher e da criança a inserção de um terceiro elemento (pessoa) para a separação natural, para que a criança inicie o processo de percepção de uma tríade. Há outra pessoa além da mãe que concorre a atenção, possui poder e costuma mostrar a ela que antes de mãe é mulher, é esposa. Costuma-se dizer que é neste momento de ruptura que se inicia a relação paterna, (GOMES, DEZAN e BARBIERI, 2014).

Esse demonstrar ao bebê que existe um mundo além dele e da mãe, de que a mãe desempenhava e deve retornar as demais funções que realizava antes de ser mãe permite que seja construído no psiquismo infantil o seu EU, já que ela percebe pela presença do pai que não é a mãe, que são seres diferentes.

É por este motivo que, segundo Freud, o pai estabelece as leis e regras na mente infantil que serão sua base de dados para a vida adulta em sociedade. Quando o pai (ou quem realiza a função paterna) não consegue se inserir a ponto de estabelecer estes cortes entre mãe e filho, ambos desenvolvem uma relação de simbiose aonde a criança não possui a menor capacidade de compreender limites impostos externamente e de se relacionar de maneira saudável com os outros.

A saúde física e psíquica dos filhos é construída dentro da família e é na deficiência dos relacionamentos que surgem as dificuldades, os problemas de comportamentos, as neuroses e as psicoses. Os sintomas psíquicos e comportamentais fruto de uma função paterna ausente estão ligados a dificuldades de manter relações sociais. Como a criança cresceu sem a percepção de que o outro tem vontades próprias, vida própria além de estar com ela, seus relacionamentos tornam-se frágeis e rompem-se constantemente pelo fato de não saber como manter vínculos de amor por falta de tolerância. Além disto não aceita leis e limites de nada e de ninguém, sendo uma criança exaustiva no lidar devido ao egocentrismo e um adolescente que tende a transgressão e ao descumprimento das mais diversas ordens.

Portanto, pense duas vezes em repreender a ação masculina no lar, em mandar o companheiro dormir no chão ou na sala para dar o seu espaço a criança na rotina familiar. Essa diminuição da autoridade paterna prejudica não só a relação conjugal, causando desequilíbrio no sistema, mas toda a construção do próprio psiquismo infantil. Só a mãe tem o poder de dar ao pai o seu lugar e a permissão de estabelecer a sua autoridade, de desempenhar a responsabilidade conforme a importância que a sua função exige.

Dami Côrtes, Especialista em Famílias, Psicologia Relacional Sistêmica, Psicologia do Desenvolvimento, Neuropsicologia aplicada à Neurologia Infantil, Psicologia Positiva, Mindfulness e Inteligência Emocional.